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Avançar em inovação exige sistematização e novo modelo gerencial PDF Imprimir E-mail
Escrito por Administrator   
Qua, 19 de Maio de 2010 21:04


   Pressão dos stakeholders por resultados imediatos e garantidos, tendência natural a gravitar em torno de caminhos conhecidos, dificuldade para administrar a carga de risco que mudanças embutem. Como inovar num cenário como esse, em que tudo parece conspirar para que se faça mais do mesmo, mas que, simultaneamente, impõe a inovação como estratégia de sobrevivência e competitividade dos negócios? O desafio é essencialmente comportamental, não técnico, e exige um novo tipo de costura gerencial, indica Clemente Nobrega, especialista em estratégia empresarial e colunista da revista Época Negócios.

   “Inovação é um processo único pela natureza dos riscos que envolve e não se encaixa nos modelos gerenciais existentes. Ela demanda liderança para ‘bancar’ o risco técnico e mercadológico do novo, intervir no processo de alocação dos recursos corporativos, transformá-la em processo e ir além das cobranças imediatas por resultados. Não avançaremos sem sistematizar a inovação”, ensina Nobrega, que fez palestra no seminário “Rumos da Inovação no Contexto Empresarial Brasileiro”, promovido pela Amcham e pela Fundação Dom Cabral nesta terça-feira (11/05) na sede da Amcham em São Paulo.

O especialista dá pistas para que as companhias lidem melhor com essa realidade conflitante e consigam assegurar progressos sustentados no campo da inovação:

•   Perceber a natureza da dificuldade de inovar. Ter consciência de que, apesar de praticamente todas as empresas declararem o desejo de investir nessa direção, ainda não há processos nem consenso sobre como gerenciar a inovação;

•   Reconhecer que faltam método, ferramentas, métricas e metas para o processo de inovar, ou seja, uma abordagem sistemática para o tema;

•   Colocar a criatividade em uma perspectiva correta, abandonando o mito de que quem inova são pessoas especiais, gênios. Inovação, na verdade, pode ser praticada por indivíduos comuns. Basta competência;

•   Debater o viés excessivamente centrado em pesquisa e desenvolvimento (P&D) que se deu à inovação no País. Inovação em modelo de negócio é mais importante;

•   Criar molduras conceituais que ajudem a escolher os tipos de inovação mais adequados aos modelos empresariais brasileiros;

•   Desenvolver uma mentalidade de estabelecimento de protótipos em inovação, compreendendo-os como a melhor maneira de romper a barreira do risco;

•   Equilibrar as demandas de curto e longo prazos, reconhecendo a pressão por resultados imediatos, mas também que inovação diz respeito a um horizonte de tempo mais amplo;

•   Aperfeiçoar a articulação das interfaces entre universidades, P&D e empresas, o que envolve disseminar a ideia de que a inovação deve ter um drive comercial.

Visão empresarial

    A importância da inovação também foi debatida com representantes de companhias que atuam no País. Eduardo Wanick, presidente da DuPont para a América Latina e membro do Conselho de Administração da Amcham, mostrou uma visão crítica da realidade local. “Ainda estamos mal. A inovação é muito importante para a sociedade e o sucesso das empresas, mas isso parece não acontecer”, aponta ele.

    Para ilustrar sua visão, Wanick mostrou dados que comparam a participação de diferentes países no Produto Interno Bruto (PIB) global e em termos de concessão de patentes. No caso do Brasil, apesar de deter 3,5% do PIB mundial, as patentes concedidas se restringem a 0,1% do total internacional, uma proporção que fica muito aquém da obtida pela Coreia do Sul, por exemplo (2% do PIB contra 14% das patentes). Na comparação com os Estados Unidos, a diferença também é gritante: 24% do PIB e 19% das patentes. “Se seguisse o padrão americano, o Brasil deveria ter 2,8% das patentes. Multiplicar o atual resultado por 28 é um desafio enorme”, afirma ele.

   Em que pese o tamanho desse desafio, Wanick, à frente de um dos grupos que mais inovam em todo o mundo, avalia que inovar no Brasil é viável e vale a pena. “Faz sentido inovar no contexto do Brasil e da América Latina e é preciso fazê-lo apesar de todas as barreiras a serem vencidas.”

  Jorge Ramos, diretor de Planejamento Estratégico e Desenvolvimento Tecnológico da Embraer, por sua vez, ressaltou a importância da inovação como motor para o aumento da produtividade das empresas. Ele reforçou ainda as palavras de Clemente Nobrega no sentido de estimular que a gestão da inovação seja introduzida na estratégia corporativa e que o ato de inovar ultrapasse os limites de P&D. “A capacitação industrial continua a ser o grande foco quando se pensa em inovação. Esse escopo tem de ser ampliado para que se tenha um retorno muito maior”, sugere.

Produção científica

  Representando a Confederação Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) e a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), as quais preside, Mario Neto Borges pontuou no seminário que os recursos financeiros atualmente disponíveis por meio dessas instituições são bastante significativos, porém ainda aquém das necessidades. Em 2009, a Confap somou R$ 2 bilhões em recursos executados.

  Borges também elogiou o País em termos de produção científica, apesar de permanecerem deficiências quanto a transformá-la em tecnologia. Para vencer entraves e fazer mais, ele indica: “Precisamos de uma legislação moderna e adequada e de mais fiscalização. Hoje a burocracia para inovar é excessiva”.


Reportagem de Giovanna Carnio